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O
que o aumento da SELIC representa para a indústria imobiliária
Romeu Chap Chap *
Em sua primeira reunião sob a administração do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Comitê de Política Monetária (Copom)
do Banco Central elevou o juro básico - a taxa Selic - de 25% para 25,5% ao
ano. As reações foram diametralmente opostas. Aplausos por parte do mercado
financeiro - para quem o aumento indica que a austeridade será mantida -, vaias
por parte de quem esperava que o “governo da mudança” já mostrasse a que
veio.
No entender do Secovi-SP, a medida deve merecer integral apoio da sociedade
desde que represente mais um esforço do governo para promover a efetiva queda
da inflação (atualmente em elevação). Ou seja, tenha o condão de aplacar
esse “monstro”, que insiste em colocar suas garras de fora. Um monstro cujo
renascimento desperdiçará quase dez anos de sacrifício, uma vez que traz
consigo a indexação, a qual recria aquele círculo vicioso - ou autofágico -
que não queremos revisitar nem em filmes de terror.
Particularmente para a indústria imobiliária, em termos práticos, a alta da
Selic pouco repercute nas operações efetuadas no âmbito do Sistema Financeiro
da Habitação (SFH). Afinal, os juros contratuais nesse Sistema são limitados
a 12% ao ano e corrigidos pela TR (Taxa Referencial). Atualmente, a TR favorece
os mutuários do SFH, graças à sistemática utilização de um redutor que
ameniza as oscilações da cesta de índices que a originam.
Para se ter uma idéia, a variação da TR em 2002 foi de apenas 2,8%. Um
porcentual pequeno se comparado ao que ocorreu com índices como IGP-DI (24,4%),
IGP-M (25,3%), e mesmo o CUB - Custo Unitário Básico da Construção (12,1%),
que capta a variação dos preços dos insumos da construção.
Tal fato demonstra que está na hora de os potenciais compradores de imóveis
voltarem a se valer do Sistema. As condições são apropriadas e, o mais
importante, há dinheiro disponível para novos financiamentos. Conforme
estabelece a Resolução 3.005/02 do Conselho Monetário Nacional, os agentes
financeiros privados têm para aplicar nada menos que R$ 30 bilhões. São
recursos adicionais àqueles já disponíveis por conta da captação regular
das cadernetas de poupança, que deverão ser devolvidos ao mercado num prazo de
100 meses, iniciado em novembro do ano passado.
Se a TR foi uma “madrasta” para o mutuário do SFH, quando, a partir de
1995, o governo elevou brutalmente os juros para enfrentar diversas crises
externas que se sucederam (mexicana, russa, asiática, etc.), tornou-se uma “mãe”
a partir de 1998, quando começou a ser utilizado o mencionado redutor. Com o
IGP-M o processo foi o inverso: foi “mãe” para os compradores de imóveis a
prazo durante os anos de baixa inflação, e passou a ser “madrasta” desde
janeiro de 1999, quando houve a desvalorização do real.
A maioria dos planos diretos entre incorporadoras e compradores é corrigida por
um índice de custo da construção - o CUB ou o INCC -, cuja variação ficou
na casa dos 12% em 2002, equiparando-se à taxa de inflação medida pelo IPCA.
Mas esse índice vale até a entrega das chaves. Depois disso, as parcelas são
corrigidas por um índice de preços, sendo o IGP-M e o IGP-DI os mais
utilizados, haja vista que a correção pela TR só pode ser feita por agentes
financeiros.
Com o descontrole da inflação no ano passado - resultado da alta do dólar e
das tarifas públicas - e com o reajuste dos materiais de construção, as
parcelas pré e pós-chaves foram majoradas, o que despertou o temor da inadimplência,
pois um aumento desse porte compromete a capacidade aquisitiva dos compradores.
Isso fundamenta nossa afirmação: o que preocupa o setor no momento não são
os juros, mas a inflação e a volta da indexação generalizada. E tudo o que
puder ser feito para controlá-la merece receber integral apoio da população.
Sem que essa meta se concretize, 0,5% a mais ou 0,25% a menos na Selic só têm
para a indústria imobiliária - e para o País - um efeito psicológico. Se,
por um lado, a redução de 0,25%, por exemplo, indicaria que o governo está
confiante na sua capacidade de conter a inflação (o que tranqüilizaria a
sociedade quanto ao medo da recessão e do desemprego), por outro, a elevação
de 0,5% fez com que o mercado financeiro sentisse firmeza na condução da política
monetária, o que mantém a atratividade aos investimentos externos, dentre
outros benefícios.
Do que o Brasil precisa? De ambos. Segurança quanto ao emprego (desenvolvimento
econômico) e investimentos. Como conseguir isso com o desejável equilíbrio? Só
há um jeito: inflação civilizada.
* Romeu Chap Chap
é presidente do Secovi-SP, o Sindicato da Habitação, e da Romeu Chap Chap
Desenvolvimento e Consultoria Imobiliária S/C Ltda.
Fonte: www.planetaimovel.com
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